🦟 Imunização

El Niño muito forte até 2027: a dose da dengue é agora, não no verão

📅 9 de Setembro, 2026 ⏱ 8 min de leitura
El Niño muito forte até 2027: a dose da dengue é agora, não no verão

Este ano a dengue deu trégua. O estado de São Paulo registrou 58.271 casos até a 35ª semana epidemiológica de 2026, contra 855.132 no mesmo período de 2025 — uma queda de 93,2%, segundo a Secretaria de Estado da Saúde. Mesmo assim, foram 42 mortes confirmadas no ano até o início de setembro. E a preparação para o que vem depois já começou: o Ministério da Saúde alertou estados e municípios em julho, e em agosto o governo de São Paulo publicou um plano de saúde específico para o El Niño. Este texto é sobre o descompasso entre esses dois calendários — o do alerta público, que responde quando a transmissão começa, e o da vacina, que precisa de três meses para terminar.

O que já foi anunciado — e o que cada anúncio faz

Segundo o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), há mais de 90% de probabilidade de o El Niño atingir intensidade muito forte no trimestre de setembro a novembro de 2026, com permanência do fenômeno até pelo menos o início de 2027. Na prática, ele atravessa inteiro o verão — que no Sudeste é a estação da dengue.

Em agosto, o governo paulista lançou o Plano Estadual de Preparação e Resposta em Saúde para o Fenômeno El Niño, organizado em quatro cenários: chuvas extremas; enchentes e deslizamentos; ondas de calor e queimadas; e arboviroses. Das 17 Regionais de Saúde do estado, 11 foram classificadas como prioritárias para as ações contra dengue, chikungunya e zika. Antes disso, em 22 de julho, o Ministério da Saúde havia alertado estados e municípios sobre o risco de alta dessas doenças com o retorno do fenômeno; a projeção do InfoDengue, da Fiocruz, é de cerca de 1,7 milhão de casos de dengue no país em 2027, número que o próprio ministério trata como estimativa de modelo climático.

Vale entender o que esses planos são. Eles reforçam vigilância, controle do mosquito e capacidade de atendimento — medidas que agem depois que a transmissão começa, e que funcionam. A imunização é a única peça que precisa estar pronta antes, e é a única que depende de uma decisão individual, tomada com meses de antecedência.

Por que a queda deste ano não é promessa para o próximo

A explicação mais comum para 2026 é que choveu menos ou que o combate melhorou. A evidência aponta para outro lado. Pesquisa publicada na revista Plos One em 2024, conduzida por Thiago Salomão de Azevedo, mostra que o El Niño por si só não produz epidemia: além do calor e da chuva, é preciso haver gente suscetível ao vírus que está circulando.

Foi isso que segurou o ano. Circularam os sorotipos 2 e 3, os mesmos de 2025, e boa parte da população já havia encontrado esses dois. A queda não veio do clima; veio da imunidade que sobrou do ano anterior.

É exatamente por isso que ela não se sustenta sozinha. O vírus da dengue tem quatro sorotipos, e ter tido um não protege contra os outros três — pior, a segunda infecção por um sorotipo diferente tende a ser mais grave que a primeira. No momento em que outro sorotipo voltar a circular com força, a imunidade emprestada acaba, e o clima favorável encontra terreno livre.

O mosquito é o mesmo. As vacinas, não

Dengue, zika e chikungunya são transmitidas pelo mesmo Aedes aegypti e nascem do mesmo criadouro — o balde no quintal, o prato da planta, a calha entupida, a lona da piscina. Contra o mosquito, o que você faz vale para as três.

Contra as doenças, não. A vacina da dengue está disponível na rede privada. A vacina contra chikungunya tem registro na Anvisa desde abril de 2025 — desenvolvida pelo Instituto Butantan em parceria com a Valneva, indicada para maiores de 18 anos em dose única —, mas em 2026 sua aplicação segue restrita a municípios de maior incidência, dentro de uma estratégia do Ministério da Saúde. Para a zika não existe vacina licenciada em lugar nenhum.

Ou seja: das três doenças que o plano estadual acompanha, só uma tem hoje uma decisão que você pode tomar por conta própria. As outras duas continuam dependendo inteiramente de não deixar água parada.

Quem pode tomar a vacina da dengue

A vacina disponível na rede privada é indicada para pessoas de 4 a 60 anos, com ou sem dengue anterior. São duas doses, com três meses de intervalo, e a proteção plena vem depois da segunda.

Ela não é indicada para gestantes, para quem está amamentando e para pessoas com imunossupressão, e quem tem mais de 60 anos está fora da faixa aprovada. Não é, portanto, uma dose universal: é uma vacina de avaliação individual, feita na triagem antes da aplicação, considerando idade, gestação e condição de saúde.

Quem já teve dengue continua sendo candidato — e por um motivo específico. Como são quatro sorotipos e a segunda infecção tende a ser mais grave, o histórico de já ter adoecido não é histórico de proteção.

A conta de três meses

Aqui está o ponto prático deste texto, e ele é aritmética simples.

  • Primeira dose em setembro ou até o início de outubro: segunda dose em dezembro ou janeiro, com o esquema completo antes do período de maior transmissão, que no Sudeste vai de janeiro a abril.
  • Primeira dose em janeiro, quando a dengue voltar ao noticiário: segunda dose em abril. O esquema termina depois do pico que deveria cobrir.
  • Não existe versão acelerada do intervalo. Antecipar a segunda dose não antecipa a proteção.

O que a vacina não resolve

Nenhuma vacina substitui o controle do mosquito. O Aedes se reproduz em água limpa e parada, e a maior parte dos criadouros está dentro de casa ou no quintal — não na rua. Dez minutos por semana olhando pratos de planta, calhas, ralos externos, garrafas e piscinas de plástico fazem mais diferença do que qualquer mutirão eventual.

E vale conhecer os sinais de alarme, porque eles mudam a conduta. Segundo o Ministério da Saúde, dor abdominal intensa e contínua, vômitos persistentes, sangramento de mucosas, tontura ao levantar, sonolência ou irritabilidade fora do comum indicam procurar atendimento imediatamente — inclusive, e principalmente, quando a febre já passou. A piora costuma acontecer justamente na queda da febre, e é o momento em que muita gente acha que está melhorando.

Perguntas frequentes

Se a dengue caiu tanto em 2026, ainda vale tomar a vacina? +

Sim. A queda de 2026 se explica principalmente pela imunidade que a população acumulou contra os sorotipos 2 e 3, que circularam também em 2025 — não pelo fim do risco. São quatro sorotipos, e quando outro voltar a circular com força essa proteção emprestada acaba. Como o esquema leva três meses, a decisão precisa ser tomada antes do próximo ciclo, não durante.

Quem pode tomar a vacina da dengue? +

Pessoas de 4 a 60 anos, com ou sem dengue anterior, em duas doses com três meses de intervalo. Não é indicada para gestantes, lactantes e pessoas com imunossupressão. A avaliação é individual e feita na triagem, antes da aplicação.

Quando tomar a primeira dose para estar protegido no verão? +

Até o início de outubro. Como são duas doses com três meses de intervalo e a proteção plena vem depois da segunda, começar em outubro fecha o esquema antes de janeiro, quando a transmissão sobe no Sudeste. Começar em janeiro significa terminar em abril, depois do pico.

O El Niño vai causar uma epidemia de dengue? +

Ele aumenta a chance, não determina o resultado. Calor e chuva favorecem a proliferação do Aedes aegypti, mas pesquisa publicada na Plos One em 2024 mostra que também é preciso haver população suscetível ao sorotipo em circulação. O Inmet prevê mais de 90% de probabilidade de El Niño muito forte entre setembro e novembro de 2026, com permanência até pelo menos o início de 2027.

Existe vacina contra zika e chikungunya? +

Contra a zika não existe vacina licenciada. Contra a chikungunya existe: a Anvisa registrou em abril de 2025 a vacina do Instituto Butantan com a Valneva, para maiores de 18 anos em dose única, mas em 2026 a aplicação segue restrita a municípios de maior incidência. As três doenças vêm do mesmo mosquito, e por isso o controle de criadouros continua sendo a medida que vale para todas.

Quem já teve dengue precisa se vacinar? +

Sim. São quatro sorotipos do vírus, e ter tido um não protege contra os outros três. A segunda infecção, por um sorotipo diferente, tende a ser mais grave que a primeira — o que torna a vacina especialmente relevante para quem já adoeceu.

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